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Pecuaristas vão ter de ‘entrar na linha’, adverte Minc

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Publicado em 22 de agosto de 2011

Ele elogia boicote ao gado com origem em desmatamento recente.
Ministro se defende de quem o critica por aparecer demais na mídia.

Dennis Barbosa Do Globo Amazônia, em Brasília

“A pecuária hoje é o maior agente de desmatamento da Amazônia e quero dizer aos que representam este setor que entrem  na linha ou vão se dar mal”, diz, em entrevista exclusiva ao  Globo Amazônia, o ministro do Meio ambiente, Carlos Minc. Ele fez o comentário a propósito do boicote de redes de supermercados à carne produzida no Pará, por  causa da suposta ligação do produto com o desmatamento da  floresta amazônica. A decisão desses supermercados teve base em  investigações do Ministério Público Federal e da organização de defesa ambiental Greenpeace

 

Para Carlos Minc, pecuária está ‘fora de  controle’. (Foto: Marcello Casal Jr./ABr )

 

Na entrevista, Minc também detalha o programa de desenvolvimento  que o governo lança nesta sexta-feira (19) nas cidades que mais  desmataram a Amazônia recentemente e se defende de quem o      critica por aparecer demais na mídia.

Globo Amazônia – O que é a operação Arco Verde/Terra  Legal, que o senhor lança com o presidente Lula e outros  sete ministros nesta sexta-feira?

Carlos Minc – Estamos combatendo o desmatamento na Amazônia. Conseguimos reduzir o desmatamento em 55% em  comparação aos mesmos meses do ano anterior, pelos dados do Inpe         (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). Como? Corte de  crédito para desmatadores, leilão de boi e madeira pirata, triplicamos as operações, em suma, combatendo o crime ambiental.  Você tem que dar às pessoas os meios de fazer o certo. Na  Operação Arco Verde, o Ministério do Desenvolvimento Agrário dá o titulo da terra, o Banco da Amazônia (Basa) dá crédito para pequenos empreendimentos sustentáveis. Tem a pesca e a piscicultura: vamos colocar o peixe amazônico no lugar do boi  pirata. O Ministério do Meio Ambiente, por exemplo, vai entrar com o manejo florestal sustentável. A Embrapa dará orientação  para uma boa agricultura de baixo impacto, que não invada áreas protegidas.

Globo Amazônia – Foi preparada uma espécie de caravana do governo, com caminhões que irão a estas cidades. Com uma  operação itinerante , podemos esperar um resultado  duradouro?

Minc – A operação é permanente. Isso é o  lançamento. Você lança as bases, identifica as pessoas, coloca  um posto do INSS, outro da Embrapa, cria critérios de  sustentabilidade para o Basa e o Banco do Brasil investirem,  escolhe as localidades mais propensas a receberem apoio para  fazer manejo florestal. Depois o programa continua. Esta blitz  inicial é para mapear e implantar. Depois vem a continuidade e a  manutenção.

Globo Amazônia – O presidente Lula disse que vetaria  “excessos” na MP de regularização fundiária da  Amazônia, mas não especificou quais. Ele já disse ao senhor  o  que exatamente pretende vetar (clique aqui para entender a MP da Amazônia)?

Minc – Ele ouviu várias opiniões e deve tomar  sua decisão definitiva até o dia 24. A ideia geral é manter o espírito inicial do projeto. Considero a regularização fundiária  essencial para combater a violência da terra. Além disso, ela  ajuda a combater o desmatamento. Um dos pontos da lei diz que  quem ganhar o título e desmatar sua reserva legal ou área de   preservação permanente perde a terra.

Globo Amazônia – Essa discussão em torno da MP 458 e de  outras medidas colocou o senhor em choque com os ruralistas.  O senhor reclamou que os projetos ambientais que chegam ao  Congresso são tão modificados que perdem sua essência. Falta  uma frente ambientalista mais ampla para conter esse tipo de modificação?

  • “O bom fiscal é o povo consciente.”

Minc – Temos uma frente ambientalista de mais de 200 deputados, mas, na hora do voto, contamos com uns 40 ou 50 deles. Por outro lado, a frente ruralista também não está com essa bola toda. Tentaram tirar as restrições ambientais da lei de regularização fundiária, e perderam de 190 a 90 na Câmara.

Não sou sectário em relação à grande agricultura. Eu me identifico com a pequena produção, acho que são nossos aliados principais. Agora, eu tenho uma tradição de diálogo com a grande produção. Tivemos um acordo com [o setor] da soja – a Moratória da Soja. Um mês atrás fizemos um balanço e eles cumpriram o acordo em 97%, ou seja, a soja deixou de ser problema de desmatamento da Amazônia.

O que está fora de controle? A pecuária. Quase  fechamos um acordo com a Abiec (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes). O presidente, Roberto Gianetti da Fonseca, esteve aqui três vezes. Quando começou a  crise e quebrou o [frigorífico] Independência, eles roeram a  corda do acordo. Só que a sociedade reagiu. Agora os  supermercados estão pregando boicote – Wal-Mart, Pão de Açúcar. Até a Adidas não quer mais comprar couro para tênis de pecuarista que desmata a Amazônia. Acho isso muito bom. O bom  fiscal é o povo consciente, o consumo consciente.

 

 

‘Bois piratas’ retirados de reserva no Pará. Para ministro, frigoríficos que compram esse  gado são co-responsáveis pelo desmatamento. (Foto: Valter Campanato/ABr )

 

Globo Amazônia – O presidente da Abiec argumenta que é difícil para os frigoríficos controlar a origem do gado que  compram. E ele aponta que o governo não ajuda a criar uma  forma de rastreamento.

 

    • AspasA pecuária hoje é o maior agente de desmatamento da Amazônia.”

 

Minc – Não é verdade que eles não sabem as  fazendas que desmatam, porque no site do Ibama tem todas as  fazendas embargadas. O que dizem é que há tantas fazendas embargadas, que teriam problemas em romper com grande parte de seus fornecedores.

O Conselho Monetário Nacional (CNM) aprovou um  pacote de apoio aos frigoríficos. Até aí tudo bem: uma atividade importante deve ser apoiada. O BNDES e todos os bancos públicos  assinaram conosco um protocolo verde pelo qual estão impedidos de financiar quem desmata. Fizemos um decreto que diz que o frigorífico que compra carne de uma fazenda que desmata a Amazônia é co-responsável. Por isso, se ele não desmata, mas compra carne de quem desmata, não pode receber um tostão de crédito do BNDES.

Com esse boicote dos supermercados e dos consumidores, eles vão entrar na linha, como todos os setores  têm que entrar. A pecuária hoje é o maior agente de desmatamento  da Amazônia e quero dizer aos que representam este setor que entrem na linha ou vão se dar mal.

Globo Amazônia – Ainda assim, a maioria das multas  ambientais não é paga e temos casos de fazendas embargadas  que continuam produzindo, com milhares de cabeças de gado, e vendendo para grandes frigoríficos. A fiscalização ambiental não consegue acabar com esse tipo de impunidade?

Minc – Estou há um ano no ministério. Os dados  apresentados em reportagens recentes se referem ao período 1997  a 2006. Desde o primeiro dia em que entrei, escolhi o combate à  impunidade como a linha-mestra do ministério. O que fizemos?  Primeira coisa: cortar o crédito dos desmatadores. Segundo:  decreto de crimes ambientais. Em vez de esperar o processo  judicial, em que o cara enrolava a multa por cinco anos, a gente  pega a madeira pirata, leiloa, e usa o dinheiro para empregar  aqueles estavam trabalhando nas serrarias e carvoarias ilegais, para não ficarem desempregados e desmatarem 5 quilômetros  adiante. Triplicamos a fiscalização. Criamos com o Ministério da  Justiça a Coordenação Integrada de Combate aos Crimes  Ambientais. Antes eu não podia convocar a Força Nacional para         operações. Hoje posso. Já participei diretamente de 22 operações         na Amazônia, todas com prisões, apreensões, embargos e leilões.

Globo Amazônia – O senhor participou pessoalmente de 22  ações de fiscalização. O Globo Amazônia acompanhou a Operação Caapora, em Nova Esperança do Piriá (PA). Foram fechadas 13 madeireiras ilegais no município e a população  parecia decepcionada com o fato de o senhor ter visitado a  cidade por cerca de uma hora junto com jornalistas, mas não  ter falado à população local sobre o o encerramento da principal atividade econômica dali, ainda que ilegal.

Minc – Em primeiro lugar, estive três horas na  cidade. Discuti com o prefeito, assinei um documento com ele e  uma parte do dinheiro obtido com a venda da madeira ilegal foi  para empregar essas pessoas que estavam em atividades ilegais. O  prefeito esteve aqui e incluí, a seu pedido, esse município na  Operação Arco Verde.

É muito fácil eu ficar no ar condicionado, em Brasília, dizendo faça isso, faça aquilo. Outra coisa é ir ver a  dificuldade, que as pessoas estão lá na ponta, que o aparelho de  comunicação não funciona, que não chegou a diária, que estão  picados de mosquitos, que o carro do Ibama está crivado de balas. É importante para dar moral para a tropa. Além disso,  para levar a imprensa e dar visibilidade – mostrar quem está  combatendo o desmatamento e a impunidade, e a cara dos donos de  serrarias e de fazendas que estão invadindo e desmatando.