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A Pecuária e as Mudanças Climáticas

A destruição das florestas para abertura de pastos e campos de cultivo para alimentação do gado tem diversas implicações, como o comprometimento da biodiversidade e a promoção de processos erosivos e de desertificação. Mas a importância das florestas não se limita à preservação de nossos recursos hídricos e absorção de poluentes, as florestas também funcionam como sumidouros de carbono da atmosfera, contribuindo para a regulagem do clima global.

Quando as plantas realizam fotossíntese, captam CO2 da atmosfera e aproveitam este carbono para a síntese de diferentes moléculas orgânicas, inclusive seus próprios tecidos. A queima de uma floresta devolve para a atmosfera grande parte deste carbono absorvido pelas plantas. Estudos mostram que pelo menos 70% das emissões de gases do efeito estufa estão relacionadas ao desmatamento e à pecuária.

Pecuária e gases de efeito estufa

Os gases do efeito estufa são principalmente o dióxido de carbono, o metano, os clorofluorcarbonetos (CFCs) e os óxidos de nitrogênio. A queima de matéria orgânica (madeira e combustíveis hidrocarbonetos), como vimos, está relacionada com a emissão de dióxido de carbono.

O nitrogênio proveniente dos resíduos animais é fonte importante do óxido nitroso (N2O). As emissões de N2O dos solos ocorrem principalmente como consequência da desnitrificação a partir de nitrogênio mineral (N). A desnitrificação consiste na redução microbiana do nitrato (NO3) às formas intermediárias de N e então às formas gasosas (NO, N2O e N2) que são comumente perdidas para a atmosfera. Estima-se que as emissões globais de N2O pelo homem sejam de cerca de 5,7 milhões de toneladas de nitrogênio por ano. As emissões diretas por parte de animais de criação comercial (principalmente bovinos e suínos) foram estimadas em 1,6 milhões de toneladas de nitrogênio por ano.

A pecuária é também uma das maiores fontes de emissão de gás metano para a atmosfera. O processo de formação do gás ocorre durante o processo digestivo de fermentação entérica de animais ruminantes (bovinos, bubalinos, ovinos e caprinos), sendo o metano subproduto deste processo, liberado para a atmosfera através da flatulência e eructação dos animais. Em média, estima-se que 6% de todo o alimento consumido pelo gado no mundo seja convertido em gás metano. O metano é 24 vezes mais potente do que o dióxido de carbono para causar aquecimentos atmosféricos, contribuindo com 15% do total do aquecimento global.

Emissões de metano pela pecuária

O rebanho mundial de bovinos é hoje estimado em mais de 1 bilhão de cabeças. A EPA (2000) estimou as emissões globais de metano geradas a partir dos processos entéricos de ruminantes de criação em 80 milhões de toneladas por ano, correspondendo a cerca de 22% das emissões totais de metano geradas por atividades humanas. O mesmo relatório estimou a emissão proveniente de dejetos animais em cerca de 25 milhões de toneladas ao ano, correspondendo a 7% da emissão total.

O Brasil possui o maior rebanho bovino comercial do mundo. De acordo com o Inventário Nacional das Emissões de Gases de Efeito Estufa provenientes de Atividades Agrícolas, realizado desde 1996 pela Embrapa Meio Ambiente, 96% do metano produzido na agricultura do país provém da pecuária bovina de corte e de leite. Outros animais como bubalinos, muares, caprinos, asininos, eqüinos e suínos são responsáveis pelos 4% restantes das emissões de metano.

Cerca de 68% da pecuária nacional é representada por bovinos (87% correspondendo aos bovinos de corte e 13% aos bovinos de leite). Estimou-se que as emissões de metano pela pecuária brasileira em 1995 fora de cerca de 9,2 milhões de toneladas de CH4, considerando-se os efetivos de bovinos (160 milhões de animais) e a produção de dejetos animais à época.

Efeito estufa e alterações climáticas

O efeito estufa é um processo natural que permite manter parte do calor irradiado pela Terra na atmosfera. Sem este efeito, a temperatura na superfície da Terra à sombra seria de - 4ºC (quatro graus centígrados negativos). No entanto, o acumulo atmosférico de gases do efeito estufa que passou a ocorrer a partir da industrialização e aumento nas atividades pecuárias tem levado a um rápido aumento das temperaturas médias terrestres.

Estima-se que, se a taxa atual de aumento de gases do efeito estufa no planeta continuar pelo próximo século, as temperaturas médias globais poderão subir até 0,8 ºC por década. Desta forma, em 2100 a terra poderia estar 3,5 ºC mais quente do que é hoje. Tal aumento nas temperaturas implicaria em drásticas e graves conseqüências em escala global.

Parte destas conseqüências pode ser facilmente verificada, através do aumento na freqüência de desastres naturais. Não para menos, do clima dependem os regimes de ventos e chuvas, das correntes oceânicas, a umidade do solo, radiação solar e o fluxo de águas superficiais entre outros. Alterações climáticas implicam não apenas em desequilíbrios ambientais e extinções em massa de animais e plantas, mas afetam diretamente atividades humanas, como a agricultura, por exemplo.

*Sérgio Greif

Biólogo, Coordenador do Departamento de Meio Ambiente da Sociedade Vegetariana Brasileira,  Mestre em Alimentos e Nutrição, Especialista em Nutrição Vegetariana

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